Como tarifas inteligentes, baterias e regulação podem transformar o consumidor em agente ativo do sistema elétrico !
A EVENERGY acompanha as mais avançadas soluções do setor elétrico contemporâneo mundial e essa atualmente combina um cenário de tarifas dinâmicas, uso intensivo de dados, baterias residenciais e integração com a rede transformando o consumidor em um participante ativo do sistema.
Em vez de apenas consumir energia, o cliente agora contribui deslocando seu consumo para horários mais vantajosos e adicionalmente, através de sistemas de armazenamento, vende eletricidade de volta à rede em momentos de maior demanda. Esse desenho, que depende de tecnologia também exige um mercado aberto e uma regulação capaz de remunerar flexibilidade e armazenamento, marco que estamos próximos de atingir no Brasil num cenário de AR – Armazenamento Distribuído.
Onde esse modelo já funciona
Em países como a Inglaterra, Alemanha, Espanha, França e Itália, Japão, Nova Zelândia e nos Estados Unidos atualmente há mais de 10 milhões de clientes que gerenciam suas contas e seus ativos energéticos em larga escala aproveitando-se dos preços variáveis ao longo do dia e monetizando através do uso de sistemas com armazenamento por baterias. Na prática, a lógica é simples: carregar quando a energia está mais barata ou abundante e exportar quando o sistema está pressionado e os preços são maiores. Essa combinação entre sinal econômico e automação é o que torna o consumidor uma peça ativa de equilíbrio da rede.
Na Alemanha, o destaque está na agregação de baterias residenciais para formar usinas virtuais, as chamadas VPPs. Nesse arranjo, milhares de sistemas distribuídos passam a ser operados como se fossem uma única planta, oferecendo flexibilidade e alívio para a rede. É um modelo especialmente relevante para países com alta penetração renovável, pois permite transformar ativos dispersos em capacidade coordenada e comercialmente valorizada.
O que isso significa para o Brasil
No Brasil, a adoção de um modelo semelhante ainda depende de uma etapa decisiva de amadurecimento regulatório. A previsão mais realista é que o consumidor comum passe a ter condições jurídicas e comerciais para armazenar e revender energia com ganho financeiro mais direto entre 2027 e 2028. O ponto central é que, sem abertura do mercado e sem regras específicas para armazenamento distribuído, a bateria ainda funciona mais como instrumento de economia operacional do que como ativo plenamente monetizável.
A abertura do mercado livre como pré-condição
A Lei 15.269, de novembro de 2025, estabeleceu um cronograma de abertura total do mercado livre de energia. A previsão é de que, até novembro de 2027, consumidores comerciais e industriais atendidos em baixa tensão possam migrar para o mercado livre, enquanto a abertura para os consumidores residenciais deve ocorrer até novembro de 2028. Essa mudança é essencial porque rompe a lógica de contratação obrigatória com a distribuidora local e cria espaço para fornecedores oferecerem tarifas inteligentes, produtos de flexibilidade e modelos de remuneração inspirados no que empresas já praticam em mercados mais avançados.
Armazenamento: o passo regulatório que falta amadurecer
O segundo pilar é a regulação do armazenamento em baterias. Em abril de 2026, a ANEEL autorizou a primeira unidade armazenadora colocalizada a uma usina de geração no país, vinculada à UFV Sol de Brotas 7, na Bahia. O movimento foi simbólico e prático: mostrou que o armazenamento já entrou definitivamente na agenda regulatória brasileira. Ao mesmo tempo, a agência continua discutindo, em consultas públicas e notas técnicas, as regras para sistemas autônomos, acesso à rede, uso tarifário e novos modelos de negócio. O passo decisivo para aproximar o Brasil do modelo ideal será avançar sobre o armazenamento distribuído, atrás do medidor, permitindo que baterias em empresas, condomínios e, futuramente, residências possam prestar serviços ao sistema e participar economicamente desse mercado.
O que já é possível no curto prazo
Embora a revenda direta de energia armazenada ainda não esteja plenamente aberta ao consumidor comum, o mercado brasileiro já começou a testar elementos desse futuro. Parceiros da Evenergy apontam o uso de plataformas inteligentes que realizam analises e avaliação de modelos de flexibilidade, baterias e varejo energético no país. Além disso, a ANEEL e agentes do setor têm estimulado ambientes experimentais e projetos-piloto voltados à inovação tarifária, integração de ativos distribuídos e usinas virtuais. Em outras palavras, a arquitetura do novo mercado está em formação.
Peak shaving e economia real para empresas
No segmento empresarial, especialmente entre grandes consumidores, as baterias já têm função econômica clara. O uso para peak shaving permite reduzir demanda contratada ou evitar consumo mais caro em horários críticos, diminuindo a exposição a custos elevados da rede. Ainda não se trata, em larga escala, da mesma lógica de revenda aberta vista no Reino Unido, mas já representa uma monetização concreta da flexibilidade energética. Para empresas ligadas a mobilidade elétrica, recarga e infraestrutura, esse é o campo mais imediato de aplicação.
Conclusão
O Brasil já reúne os sinais de que essa transformação começou. Em 2026, o foco está na consolidação tecnológica, em parcerias estratégicas e no avanço da regulação do armazenamento. Em 2027, a abertura do mercado para pequenos negócios deve inaugurar a fase inicial de ofertas mais sofisticadas de energia. Em 2028, com a entrada esperada dos consumidores residenciais no mercado livre, o país poderá finalmente dar escala a tarifas inteligentes, baterias integradas e novos mecanismos de remuneração por flexibilidade. Se a regulação evoluir no ritmo necessário, o consumidor brasileiro deixará de ser apenas pagador de conta e passará a atuar como agente econômico do sistema elétrico.
Flavio Marqueti – Engenheiro e Diretor Executivo da EVENERGY